Desmistificando o ESG

Um dos assuntos mais frequentes do momento envolve 3 letras: E, S e G: Environmental, Social Responsibility and Governance ou em português ASG (ambiental, responsabilidade social e governança).

Apesar do turbilhão de informações sobre o tema que se intensificou em 2020, o assunto não é novo. Na realidade, ele existe há décadas.

A que se deve esta nova onda de interesse sobre o tema? O conceito mudou? O que as empresas, acionistas, investidores, reguladores, consumidores e stakeholders em geral estão demandando? Qual a nova agenda de governança que se impõe às organizações?

O conceito de sustentabilidade começou a ser delineado na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo em 1972, e definido no Relatório “Our Commons”, publicado pela World Commission on Environment and Development, em 1987. Desde lá, muito foi e continua sendo feito. No entanto, chegamos em um momento extremamente desafiador sob o ponto de vista ambiental e social. Estamos nos aproximando dos limites máximos estabelecidos para poluição do ar e mudanças climáticas, a atmosfera e os oceanos estão sobrecarregados de carbono, níveis crescentes de desmatamento, extinção de espécies, degradação do solo, superpopulação, etc. Fronteiras climáticas históricas e perigosas que demandam um maior empenho coletivo e união de forças globais.

Da mesma forma, a pandemia do Novo Corona Vírus está impondo uma nova dimensão dos problemas sociais. Ela vem produzindo repercussões não apenas na esfera da saúde em escala global, mas também repercussões e impactos sociais, econômicos, políticos, culturais e históricos sem precedentes na história recente da humanidade.

Ao mesmo tempo que pessoas físicas e jurídicas estão sendo profundamente afetadas com as adversidades da pandemia, estamos vivenciando um profundo repensar de valores e propósitos. Esta reflexão nos afeta a todos como indivíduos e organizações. De acordo com o Prof. Collin Meyer, da Universidade de Oxford: The purpose of a company is not just to produce profits, it is to produce solutions to problems of people and planet, and in the process to produce profits.

A boa notícia é que hoje já há diversos estudos comprovando que o investimento em práticas de ESG traz resultados financeiros significativos para as empresas. Não obstante, para se colher estes resultados estas iniciativas devem estar pautadas em materialidade. Entender como cada um pode contribuir com o ambiente e a com a sociedade e continuar gerando lucro é um desafio, mas um desafio possível e que se mostrou rentável.

Em janeiro de 2018, Larry Flynk, o CEO de um dos maiores fundos de Private Equity do mundo, a BlackRock, que administra uma carteira de aproximadamente 1.7 trilhões de dólares, encaminhou uma carta ao mercado exigindo que as empresas investidas elevassem a régua das suas iniciativas ESG. Este foi um marco importante pois passou a demandar do mercado não apenas melhores práticas de ESG, mas também a sua demonstração efetiva e de maneira padronizada para a obtenção de financiamentos e investimentos financeiros.

Empresas em todo o mundo estão buscando melhorar seus impactos positivos e eliminando e mitigando os negativos ao meio ambiente e sociedade através de uma governança integrada e de uma estratégia que inclua ESG como elemento central.

Até pouco tempo atrás, cada organização geria e reportava suas iniciativas ESG de forma voluntária e sem uma metodologia padrão. Hoje se busca uma governança integrada em que se leve em consideração não apenas os aspectos econômicos, mas também os pilares ambiental e social. Igualmente busca-se standards globais de reporte que permitam que empresas, acionistas, investidores, reguladores, consumidores e stakeholders em geral entendam qual a visão de futuro das empresas, o que de fato estão fazendo para diminuir seus impactos e como estão contribuindo para um mundo melhor e mais justo, mantendo sua sustentabilidade.

Atualmente, está em discussão entre os principais players internacionais, a formulação de um standard global para reporte de práticas ESG. Agencias e instituições internacionais de Standards, a organização internacional de reguladores de valores mobiliários, fórum econômico mundial, princípios de investimentos sustentáveis entre outros estão empenhados na busca de uma solução. Neste interim, enquanto não se define o standard global, a recomendação é que todos arregacem as mangas e revisem suas iniciativas, processos, governanças e reportes.

O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) alinhado com as melhores práticas de governança internacionais, lançou, em novembro do ano passado, a nova Agenda Positiva de Governança Corporativa incluindo seis pilares principais: ética e integridade; diversidade e inclusão; ambiental e social; inovação e transformação; transparência e prestação de contas; e conselhos do futuro.

Para ilustrar a forma como isso aparece no dia a dia, trazemos alguns exemplos de iniciativas de sucesso tomadas por algumas empresas.

A Patagonia, é referência no tema ESG. A começar pelo seu slogan “We’re in business to save our home planet”. As ações da empresa demonstram que eles realmente estão nos negócios com intuito de promover maior consciência ambiental e social. Desde 1983 a Patagonia apresenta movimentos que chamam a atenção de investidores, colaborares e consumidores. Diferente de muitas empresas na indústria da moda, a companhia estimula os seus clientes a se tornarem donos do produto que adquirirem da marca, incentivando a reutilização das roupas e sua reciclagem, antes da aquisição de novas, com o objetivo de diminuir a compra por impulso. Em 2011 a empresa chegou a lançar uma campanha chamada “Não compre esta jaqueta”, justamente para estimular o consumo consciente de seus clientes. A Patagonia, ainda, tem como pilar a diversidade e a valorização de seus funcionários através da promoção da transparência de números e um ambiente de trabalho que encoraje a inovação, o trabalho em equipe e aceite erros. Ademais, há uma forte atenção também aos fornecedores de matéria prima para a fabricação dos produtos da marca. A empresa tem uma preocupação especial com os seus fornecedores, para que esses tenham valores (ambientais e sociais) similares aos deles, chegando a diminuir a quantidade de fornecedores para que o controle de observância desses valores possa ser feito com qualidade.

A Nespresso, que fabrica a máquina de café da Nestlé, também demonstrou uma preocupação com impacto ambiental e social que causa.  Entre outros, possui um projeto com impacto social, o “S” do ESG.  A empresa publicou no final de 2020 que estaria destinando o resíduo de café, proveniente da separação do produto de suas capsulas descartadas pelos consumidores, como alternativa de adubos para a cultivação de alimentos orgânicos de uma Cooperativa de São Paulo.  Além da entrega do resíduo, a marca investe em apoio na gestão, planejamento e no controle de custo dos produtores como forma de auxiliá-los em uma melhor rentabilidade de seus negócios.

Mas o “Social” não se preocupa apenas com ações que visam o desenvolvimento social em aspectos externos à empresa, como também com a diversidade (étnicas, raciais, de gênero, etc.) dentro da própria empresa. Algumas companhias de capital aberto dos Estados Unidos, por exemplo, quadriplicaram a nomeação de executivos latinos para estarem presentes nos seus conselhos de administração. A NASDAQ (Associação Nacional de Corretores de Títulos de Cotações Automáticas, dos Estados Unidos) apresentou uma proposta para que se torne obrigatório que todas as suas empresas associadas tenham em sua diretoria ao menos uma diretora mulher e um diretor que pertença a um grupo minoritário ou à comunidade LGBTQ+. Há, assim, uma pressão externa para que as empresas se adaptem.

E por falar em bolsa de valores, a Comissão de Valores Imobiliários (CVM) se posicionou em audiência pública realizada no final de 2020 no sentido que deverá intensificar a sua atenção em relação à Iniciativa Relate ou Explique (que hoje é voluntária), que tem por essência a exigência de posicionamento das empresas em relação aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) relevantes. A Bolsa de Valores Brasileira (B3) estuda também incluir o reporte de ações ligadas ao tema ESG como regra para algumas empesas.

 Ainda temos um longo caminho pela frente, mas as forças de mercado estão impulsionando uma transformação positiva importante na maneira como entendemos e nos comportamos frente ao meio ambiente e a sociedade.

O Grupo de Trabalho de ESG do WLM é composto por associadas das mais diversas áreas e tem como objetivo a capacitação e produção de conteúdo sobre os aspectos do ESG. É um canal amplamente aberto para a conversa, sem qualquer tipo de restrição para a troca de ideias e de informações sobre a temática, no qual todas, independente do conhecimento técnico, tem voz.

 


Fontes:

  1. Report of the World Commission on Environment and Development: Our Common Future – United Nations, 1987. Our Common Future: Report of the World Commission on Environment and Development (un.org)
  2. Larry Fink’s 2018 Letter to CEOs | BlackRock
  3. Fonte: https://invest.exame.com/esg
  4. https://conteudos.xpi.com.br/esg/

 


Autoras:

ROBERTA PÊGAS. Fundadora e CEO da ESG Legacy, empresa especializada em responsabilidade corporativa e provedora de soluções internacionais de ESG e GRC. Roberta também é Diretora jurídica da FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

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ALICE MEDEIROS KUHN. Advogada atuante no Direito do Trabalho e estudante do Ambiental, que encontrou no ESG a união de duas áreas que são complexas e apaixonantes.

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